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6 de abril de 2014

Vingança: laço do Diabo

"Sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas"
Mateus 10.16 b.

Por Eliseu Antonio Gomes

Algo extremamente óbvio deveria sempre estar esclarecido aos cristãos: as pessoas que alimentam maldade no coração sofrem mais.

"E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar" - Gênesis 4.6-7.

Quando surge a discórdia

"Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno - Mateus 5.22.

"Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor" - Romanos 12.19.

 "Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo" - Hebreus 10.30.

Deus tudo vê e não está de braços cruzados, Ele é o Protetor dos injustiçados. A desforra só pertence ao Senhor, porque só Ele é justo.

É triste observar que alguns cristãos adotam ações más porque foram vítimas da maldade alheia. Vítima de indivíduos maus eles também se tornaram pessoas más, sem conseguir enxergar em que tipo de gente ruim se transformaram. Interpretam a reação humana da contenda como algo natural, quando é um processo espiritual diabólico, que aprisiona ofensores e ofendidos para que percam o dom da salvação.

Os humildes e os  irreconciliáveis

"Bem aventurados os pacificadores" - Mateus 5.9.

É importante viver como agente promotor da paz, porém, nem sempre é possível promovê-la. Paulo escreveu "se possível tende paz com todos", porque encontramos em nossas relações interpessoais pessoas duras de coração, irreconciliáveis, e diante de gente assim a única alternativa para encontrar a tranquilidade é afastar-se delas (Romanos 1.31; 2 Timóteo 3.3).

Nos laços de relacionamentos com o próximo jamais devemos nos humilhar. Humilhar-se diante dos homens jamais será sinal da humilde que o Senhor pede que os cristãos pratiquem, mas traços negativos de fraqueza de caráter, conduta de bajulador e de falta de coragem (Provérbios 24.10; 2 Timóteo 1.7).

Na Palavra de Deus, está muito claro que o crente deve humilhar-se apenas a Deus, e não ao semelhante (1 Pedro 5.6; Tiago 4.10).

Priorize a paz

"Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus" - Mateus 5.9. Não é a vontade do Senhor que o cristão viva em briga contra o próximo, só quem investe em que haja relacionamentos de paz são considerados filhos de Deus.

"A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira" -  Provérbios 15.1. Não pense que pelo fato de você renunciar ao desejo de dar uma resposta carnal aos que lhe prejudicam estará em desvantagem, é exatamente o contrário! Toda a vantagem reside na vida daqueles que escolhem caminhar no Espírito, tal caminhada alegra a Deus e a alegria do Senhor gera na vida do caminhante espiritual força para vencer (Neemias 8.10).!

"Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira" - Efésios 4.26. Quando  o desejo de vingança por iniciativa própria domina a vida da pessoa, contamina a alma dela e faz com que o ressentimento destrua sua comunhão com Deus e a própria paz de espírito. É importante em meio ao atrito esforçar-se para não perder o controle emocional e esforçar-se para nunca guardar mágoas no coração.

A justiça divina

 "Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas" - Romanos 4.7 a.

Quando somos empurrados a entrar no círculo vicioso de responder o mal com o mal, precisamos tomar a decisão de apresentar o coração abalado para Deus, mostrar a Ele a tentação indutora ao  abandono da prática do amor ao próximo, e pedir que nos permita ver como Ele trata de nossa alma ferida com justiça.

O verdadeiro inimigo do ser humano não é o ser humano. A batalha do crente é contra Satanás e suas hostes infernais (Efésios 6.12). Então, se tentados e vencidos pela tentação de vingar-se contra alguém que comportou-se de maneira indesejável, é necessário mudar de atitude urgentemente, pois o convite de Cristo conclama ao arrependimento do pecado cometido.

Ao confessar a Jesus o erro e ter a disposição de não mais praticá-lo, indo também pedir perdão aos que fizemos maldades, alcançamos a misericórdia divina (Provérbios 28.13; 1ª João 1.9).

O coração de Deus em favor e contra o coração do ser humano

Deus é justo, e no exercício da justiça divina Ele nos trata exatamente como tratamos o próximo. Só quem possui disposição para perdoar recebe o perdão divino, e apenas quem é misericordioso para com os outros é alvo da misericórdia do Senhor.

"Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso" -  Lucas 6.35-36.

"Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia" - Mateus 5.7.

"Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo" - Tiago 2.13.

E.A.G.

Postagem original publicada no blog Belverede .

25 de março de 2014

Razão, romantismo e fé - Para entender o mundo moderno

Ronaldo Lidório

http://www.ultimato.com.br/


Tão importante quanto saber o destino da estrada é entender o significado da caminhada.

Faço parte de uma geração profundamente influenciada pelo racionalismo e romantismo. O racionalismo, marcado pelos avanços do conhecimento humano nos últimos 200 anos, tenta nos convencer que tudo pode ser explicado intelectualmente. Todos os mistérios podem ser desvendados e aquilo que não se pode provar não possui valor. O racionalismo desenha uma linha imaginária entre os que reconhecem apenas a razão e aqueles que buscam o significado da vida. Os primeiros se veem como racionais e apontam os outros como ingênuos. 

De certa forma podemos pensar que o racionalismo é a morte da esperança. Ao reconhecer que nossa vida não passa daquilo que podemos plenamente explicar, perdemos de vista a possibilidade de nos encantarmos com o inexplicável que nos tira as palavras e o fôlego. Ao usar a razão como único crivo para as experiências da vida, reduzimos a vivência humana às combinações químicas do cérebro e biológicas do ambiente perdendo, assim, o anseio pela relação com o a força mais transformadora – o amor – e Deus, aquele que primeiro nos amou. Ao resumirmos a história aos fatos palpáveis nos perdemos na própria história. Olhamos, analisamos e explicamos a humanidade, mas sem enxergar a vida.

O romantismo é uma influência quase antagônica ao racionalismo cientificista, porém ao mesmo tempo o complementa na construção da nossa sociedade e da corrente visão de mundo. O romantismo não é esperança, mas aparência de esperança. Não é alegria, mas imagem de alegria. É a busca por uma vida ideal, idílica e perfeita, portanto puramente imaginária. Todos os aspectos da sociedade estão influenciados pelo romantismo. A vida que se almeja nunca é a sua – real – mas a outra. Não há contentamento, mas desejo. Não há satisfação, apenas busca. A família ideal é uma imagem vista em anúncios onde todos sorriem, estão sempre em movimento, o clima é perfeito, todos são belos e se divertem exaustivamente. Eles não são uma família, mas uma ideia. E esta ideia de perfeição tem como missão tornar todas as vidas potencialmente insatisfeitas com o que são e o que tem. É a morte do contentamento e a justificativa das insatisfações. 

O romantismo colabora para a construção de uma sociedade hedônica – onde todos buscam o prazer – e narcisista – que cultua o belo. O racionalismo colabora para que esta sociedade seja também materialista – valorizando apenas o que se vê – e triunfalista – definindo a vida pelos rasos critérios do sucesso público, tangível e contábil. Busca-se uma roupa nova como quem busca o ar que respira. O novo aparelho eletrônico não é apresentado como uma utilidade para o homem, mas como significado para a vida. Coisas triviais e desnecessárias passam a ter maior importância que o real sofrimento humano, a injustiça social, o desespero da alma e os valores da vida. Se o racionalismo mata a esperança, o romantismo faz nascer a futilidade. 

É justamente nesta sociedade cada dia mais melancólica e rasa que Jesus lança o mais fascinante convite: siga-me! Não é um convite solto no ar ou palavra de um guia que simplesmente aponta o rumo, mas uma chamada ao relacionamento. 

O convite de Jesus não promete os prazeres hedônicos, as fenômenos narcisistas, as futilidades materiais ou os aplausos triunfalistas. É um convite que anda na contramão das propostas irrecusáveis da sociedade moderna, pois é precedido por “negue-se a si mesmo” e “tome a sua cruz”. Não nos convida a uma simples caminhada, mas a um coração transformado. Não é um passeio de fim de tarde, mas o início de um relacionamento eterno. 

Possivelmente as três convocações mais enfáticas de toda a Bíblia sejam: amar a Deus, amar ao próximo e fazer discípulos. É na caminhada, seguindo a Jesus, que estes fenômenos acontecem. Passamos a aprender a amar Deus, que primeiro nos amou; começamos a ver os que estão ao nosso lado com olhos de interesse, compaixão e fascínio; passamos a fazer discípulos para que todos nos pareçamos mais com Jesus. 

A caminhada de Jesus não apenas propõe o rumo, mas expõe o significado da vida ao longo do percurso. É no caminho que nossos olhos se abrem e um relacionamento muito além das limitadas propostas racionalistas e românticas se apresenta. É um relacionamento perceptivo, mas além da nossa compreensão. É visivelmente transformador, mas não possui uma fonte mensurável. É resultado de fé, mas dá significado à própria matéria. Não é racionalista, mas confere sentido racional à existência. Não é romântico e fantasioso, mas real e libertador. Não é um encontro com seu próprio ‘eu’, mas com o próprio Criador. 

Observe que o primeiro passo para este relacionamento não é dado por nós, mas pelo que nos convida. Ao ouvir a sua voz... siga-o. Se estiver em outro caminho... volte.

“E Jesus dizia a todos: se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, a perderá. Mas quem que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará”. (Lucas 9.23-24).

11 de fevereiro de 2014

A importância de ler e frequentar salas de aula


A Life Foundation of Western Australia (Fundação Aprender para Vida da Austrália Ocidental - http://www.learnforlifewa.org.au/) identifica-se em seu site como uma fundação sem fins lucrativos, e lança campanha para incentivar a educação, cujo título é Set Yourself Free (Defina-se Livre).

Atenção: cenas de efeitos visuais surpreendentes, conteúdo com imagens inadequadas para crianças e pessoas com temperamentos sensíveis. Cogita-se que o conteúdo trata-se de mais um hoax na internet, porque o site possui informações insuficientes da entidade, e se presta a apresentar apenas o vídeo, logo abaixo.

Duas garotas combinam ir à praia com dois rapazes durante o horário em que deveriam estar em sala de aula (é o famoso ato de cabular: termo usado no sudeste do Brasil para trocar a aula por passeio às escondidas dos pais). E nesta aventura, os quatro adolescentes descobrem as consequências de não possuírem o hábito de ler.

Créditos: vídeo escrito e dirigido por Henry Inglis and Aaron McCann. Produzido por Lauren Elliott. © Perfectly Adequate 2014.




30 de maio de 2012

Razões e consequências da guerra cultural no Brasil


por Valmir Nascimento 
[Artigo publicado no Mensageiro da Paz - Abril/2012]
 Estamos em meio a uma guerra silenciosa. Não se trata de um embate internacional, civil ou étnico, mas sim cultural. Um conflito travado entre os adeptos dos principais sistemas de ideias que movem a sociedade e que apresentam formas diferentes de ver o mundo, compreender a vida e definir o que é certo ou errado, justo ou injusto.
Por muito tempo, essa tensão social foi representada pelo embate entre o comunismo e o capitalismo, mas depois da queda do muro de Berlim tal disputa perdeu completamente o seu sentido. Como escreveu o ex-professor de Harvard, Samuel Huntington, em seu livro “O choque das civilizações”, no final da década de 80 o mundo comunista desmoronou e o sistema internacional da Guerra Fria virou história passada. Com isso, Huntington previu uma reconfiguração da política mundial seguindo linhas culturais e civilizacionais. Segundo ele, os conflitos mais abrangentes, importantes e perigosos não se dariam entre classes sociais, ricos e pobres, ou entre outros grupos definidos em termos econômicos, mas sim entre povos pertencentes a diferentes entidades culturais e religiosas. Huntington então vislumbrou um conflito entre as civilizações do mundo ocidental e o mundo islâmico.
Ocorre que Huntington não chegou a prever o choque cultural dentro do próprio Ocidente, entre os defensores da ética oriunda do modelo judaico-cristão e os adeptos do liberalismo e do relativismo moral. E é exatamente sobre esta guerra cultural que estamos falando. Mais especificamente sobre o choque entre a cosmovisão cristã e o pensamento liberal.
O epicentro do conflito entre os cristãos e os liberais reside exatamente nas concepções divergentes sobre questões éticas. E esse tipo de discussão tem uma influência decisiva na vida política, econômica e jurídica do país. Os debates que envolvem critérios de justiça, distribuição de renda, se o Estado deve ser mínimo ou de bem estar social, se o aborto, a pena de morte, o casamento homossexual e a descriminalização das drogas devem ser condutas aceitas, são temas que, invariavelmente, passam pelo crivo dos fundamentos ético-morais que norteiam a sociedade.
Hoje, porém, estes fundamentos estão transtornados (Sl. 11.3). O pensamento liberal defende que as pessoas têm o direito de fazer o que quiser com aquilo que lhes pertence, desde que sejam respeitados os direitos dos outros de fazer o mesmo. Outro professor de Harvard, Michael J. Sandel, em seu livro “Justiça”, explica que uma das principais características deste sistema de pensamento é a rejeição da legislação sobre questões morais. Os libertários são contra a aprovação de leis que promovam noções de virtude ou para expressar as convicções morais da história.
Para agravar ainda mais a concepção liberal, o ideal pós-moderno advoga a inexistência de uma verdade absoluta, capaz de estabelecer regras universais para todos os homens. Para eles, “o que é certo para nós talvez não o seja para você” e “o que está errado em nosso contexto talvez seja aceitável ou até mesmo preferível no seu”.
A partir deste cenário, não é difícil entrever os motivos para a guerra cultural. Ao contrário da pós-modernidade e do liberalismo, a cosmovisão cristã é alicerçada em uma verdade absoluta, revelada por Deus por meio das Escrituras Sagradas.  A verdade é o fundamento do pensamento cristão; a viga mestra das suas doutrinas. E se há uma verdade absoluta, há também um padrão ético universal a ser seguido por todos os homens (Rm 2.14-15). Foi baseado neste padrão ético que o cristianismo influenciou decisivamente a sociedade, sendo responsável pelos principais fundamentos de justiça, igualdade e liberdade.
O secularismo que varre a Europa e os Estados Unidos tem contribuído ainda mais para o avanço desta guerra cultural. Sob o pretexto do laicismo (separação entre Estado e religião), os defensores da visão bíblica estão sendo hostilizados por defenderem valores tradicionais históricos. No Brasil este conflito também existe. Durante palestra realizada no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em janeiro deste ano, Gilberto Carvalho, atual secretário-geral da Presidência da República, disse que o Estado deve fazer uma disputa ideológica pela “nova classe média”, que estaria sob hegemonia de setores conservadores. “Lembro aqui”, continuou Carvalho, “sem nenhum preconceito, o papel da hegemonia das igrejas evangélicas, das seitas pentecostais, que são a grande presença para esse público que está emergindo”. Embora tenha pedido desculpas posteriormente, em razão de várias manifestações dos evangélicos, o pronunciamento de Gilberto Carvalho descortina o atual embate cultural dentro da sociedade brasileira.
            O crescimento dos evangélicos e a saída da esfera privada para discutir assuntos de interesse público, como o aborto, a união homossexual e a descriminalização das drogas, por exemplo, são alguns dos fatores que tem desencadeado o embate. Isso porque gera uma contrapartida dos liberais que, incomodados com o avanço do “conservadorismo”, tentam de todo modo neutralizar os debates sobre questões éticas, rotulando-os de puramente religiosos.
A tentativa dos liberais de frear a manifestação dos evangélicos não é um golpe somente contra os religiosos, mas contra a própria Constituição Federal, que estabelece que todos são iguais perante a lei e que ninguém  será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. Um Estado Democrático de Direito pressupõe a possibilidade de debates e discussões livres pelos vários grupos que compõem a sociedade. Abafar a voz dos “conservadores” constitui-se na instauração de um Estado totalitário, que tenta impor coercitivamente uma ideologia liberal.
O argumento de que em um Estado laico os religiosos não podem ter espaço no ambiente público é um grande embuste; uma verdadeira deslealdade intelectual. A discussão do que é justo ou injusto, certo ou errado, são questões que não dizem respeito apenas à maneira como os indivíduos devem tratar uns aos outros. Elas também dizem respeito a como a lei deve ser e como a sociedade deve se organizar. E essa discussão parte do debate sobre a Ética, também chamada de filosofia moral. E assim como as várias teorias existentes (liberalismo, utilitarismo, relativismo) o pensamento cristão também tem a sua própria concepção, e como tal necessita ter lugar à mesa de discussões públicas.
Ao não reconhecer esse direito, o Estado corre o risco de voltar a praticar a perseguição contra os cristãos do século I. Uma perseguição ideológica, sem derramamento de sangue, mas igualmente perigosa.
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